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terça-feira, 2 de novembro de 2010



05 a 28/11 em Salvador
03 a 12/12 no Rio de Janeiro



“Alguém que já viveu e que já acumulou experiências e ensinamentos tem a oferecer, tem a dar.  E também é um portador de toda uma história que foi acumulada. Por isso que tomar bença significa receber a vibração positiva dessas pessoas. A bença serve pra quem é abençoado;  não pra quem põe a bença”,  Makota Valdina, educadora, religiosa e líder comunitária

Para celebrar seus vinte anos de existência, o Bando de Teatro Olodum estreia o espetáculo “Bença”, com patrocínio da Petrobras, através da Lei Rouanet. Em Salvador, a montagem fica em cartaz de 5 a 28 de novembro, no Teatro Vila Velha, enquanto o Rio de Janeiro terá temporada de 3 a 12 de dezembro, no Teatro Tom Jobim, no Jardim Botânico. O respeito aos mais velhos é o mote da peça teatral, que propõe o resgate da memória cultural da população afro brasileira. Em cena, os 19 atores e dois músicos contracenam com os depoimentos em vídeo de Bule-Bule, Cacau do Pandeiro, D. Denir, Ebomi Cici, Makota Valdina e mãe Hilza, figuras emblemáticas e guardiãs da cultura popular.

Em cartaz até 28 de novembro, “Bença” marca ainda a volta de Márcio Meirelles como diretor de teatro, fato que não acontece há quatro anos, quando ele assumiu a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. “Posso definir esse trabalho como um espetáculo de instalação, que eu fui descobrindo como fazer durante o próprio processo”, reflete Meireles. Os diálogos abstratos de enredo bem tramado ganham corpo num palco com 20 metros de boca de cena. Nesse espaço, os vídeos conduzem o espectador para o sentido do espetáculo, que pode escolher que imagem quer acompanhar entre os três telões de exibição simultânea.

São sete temas principais que correspondem a sete diferentes blocos: Começo, Mais Velhos, Respeito, Crianças, Morte e Fim. Meia hora antes do começo da peça, a ação já está em andamento – enquanto a plateia vai se acomodando, os atores estarão visíveis no tablado, cantando e tocando tambores e atabaques. Os telões também já estarão ligados, com imagens de atores negros que atuavam antes de 1990, ano de surgimento do Bando de Teatro Olodum. Para completar, dois componentes do elenco filmam a entrada do público, com transmissão simultânea. A partir daí, a cada bloco dois atores se revezam na filmagem do próprio espetáculo.

Com linguagem contemporânea e não linear, a peça, ao falar dos mais velhos, trata a passagem do tempo como algo construtivo e enriquecedor. Não um tempo cronológico que simplesmente passa, mas o tempo das coisas, ou seja, ele é circular e traz benefícios.

“O tempo, pra cultura banto, é muito profundo e envolve a formação de tudo, já que não é só o tempo do homem. É aí que entra a ancestralidade. Quando se diz que os orixás são ancestrais é porque eles vieram antes do ser humano, assim como a natureza veio antes do ser humano. Foram eles que possibilitaram o nascimento da vida humana e o seu desenvolvimento. A gente é o resultado de toda essa natureza criada antes e essa essência de ancestralidade, portanto, deve ser respeitada”, Makota Valdina

Com isso, a montagem também passa a mensagem do saber envelhecer bem. “Em nossas entrevistas, encontramos líderes que parecem resistir ao extremo e se mantêm vivos apenas esperando que alguém chegue para substituí-los. Isso resume bem o nosso trabalho de garimpagem do conhecimento – um conhecimento que não se encontra nos livros e que acaba se perdendo se não for resgatado”, afirma a diretora de produção Chica Carelli. Nesse sentido, “saber envelhecer bem” pode ser interpretado como aprender a entender, a dosar e a dominar o tempo. Na fala do cordelista Bule Bule, “quem sabe viver espera a morte com grandeza e produz bastante, até no último momento. Deixa um legado para se comentar e continua vivendo através da sua obra em outras matérias. Se for manso com o tempo, convive com ele e chega onde deseja”.

“Tem coisa na juventude que não consigo entender

Velho ninguém quer ficar

Novo ninguém quer morrer

A melhor coisa da vida é ficar velho e viver”,

Bule Bule

Para Cacau do Pandeiro, a morte é uma das etapas do processo natural da vida e deve ser encarada com alegria. “Quem parte cedo é porque não teve aquele merecimento de ficar velho e aí tem que morrer”, diz ele. A mensagem positivista do espetáculo mostra que o corpo físico desaparece e se transforma, mas que a essência de cada um é eterna.

No que retoma o respeito aos mais velhos, “Bença” fala também das crianças. “Na minha família, o reconhecimento do saber dos idosos sempre foi natural. Minha bisavó era a vedete da contação de histórias e todo mundo ficava quieto para ouvir”, diz Zebrinha, coreógrafo da peça. Ele complementa com um alerta: “os velhos precisam ser preservados mesmo como pessoas físicas”. De fato, o pensamento corrobora com a fala de Makota Valdina em um dos vídeos quando ela lembra que em tempos passados a relação com a antiguidade envolvia uma reverência mais forte. “Dá-se muito valor ao que é novo, ao que é moderno, mas o que é velho está ficando em desuso”, afirma a educadora.

Com essa energia ancestral de orixá, tudo conspira a favor de uma justa homenagem à companhia negra mais popular e expressiva da história do teatro na Bahia.

O Projeto: O espetáculo “Bença” faz parte de um projeto maior chamado “Respeito aos Mais Velhos”, que ganhou, há dois anos, o edital de manutenção de grupos e companhias de teatro e dança do Programa Petrobras Cultural. As cidades de Salvador, Ilhéus, Feira de Santana e São Luís (Maranhão) receberam workshops de memória e identidade, dança, teatro e música com foco no resgate cultural e sabedoria popular – sempre abertos ao público. A mesma equipe que ministrava os workshops realizava as pesquisas e entrevistas que seriam usadas em “Bença”. Já os seminários aconteceram em Salvador, com os seguintes temas: Patrimônio Imaterial, Quilombos Urbanos, História da Ocupação Territorial do Povo Negro e Registro de Memórias e Tradições.

Serviço:
Onde: Palco Principal do Teatro Vila VelhaEndereço: Passeio Público, Campo GrandeTelefone: 3083-4600Quando: de 5 de novembro a 28 de novembro. Sempre às 20h, de sexta a domingo.Quanto: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia entrada)Realização: Bando de Teatro Olodum e Teatro Vila Velha

E-mail: bando2@gmail.com Site: www.bandodeteatro.blogspot.com Ficha técnica:Concepção do roteiro cênico e de encenação Márcio Meirelles

Fragmentos de textos : Bando de Teatro Olodum

Depoimentos: Bule-Bule, Cacau do Pandeiro, D. Denir, Ebomi Cici, Makota Valdina e mãe Hilza.

Poemas: Jônatas Conceição da Silva

Direção: Márcio Meirelles

Co – Direção teatral e Direção de Produção: Chica Carelli

Coreografia: Zebrinha

Direção Musical :Jarbas Bittencourt

Iluminação: Rivaldo Rio

Figurino: Zuarte Junior

Desenho de som: Filipe Pires

Operação de som: Mauricio Roque

Montagem de som: Equipe técnica do Teatro Vila Velha

Cenário: Márcio Meirelles

Edição de vídeo e VJ: Davi Gabiru

Preparação de Canto: Marcelo Jardim

Oficina de percussão: Marcus Bobó

Oficina DJ: DJ MagoneVídeo :Registro das entrevistas: Bando de Teatro Olodum, Maise Xavier, Davi Gabirú

Edição das entrevistas : Maise Xavier e Davi Gabirú

Realização: Estúdio do Vila

Programação visual: Camilo Fróes

Fotos: João Meirelles

Divulgação: Via press - Elaine Hazin Direção de Produção: Chica Carelli

Equipe de Produção: Auristela Sá, Fábio Santana, Telma Sousa e Valdineia Soriano

Estagiários de Comunicação: Eduardo Machado, Viviane Vergasta

Equipe de vídeo do Bando: Arlete Dias, Cell Dantas, Ednaldo Muniz, Leno Sacramento e Telma Souza

Equipe de Figurino: Auristela Sá e Valdineia Soriano

Equipe de Cenário: Gerimias Mendes .

Equipe administrativa : Chica Carelli e Fabio Santana,

Administração de projetos : Márcia Menezes e Ana Cecília Rosa (estagiária)

Coordenador Técnico: Rivaldo Rio

Elenco: Arlete Dias, Auristela Sá, Cássia Valle, Cell Dantas, Clésia Nogueira, Ednaldo Muniz, Elane Nascimento, Fábio Santana, Gerimias Mendes, Jamíle Alves, Jorge Washington, Leno Sacramento, Merry Batista, Rejane Maia, Rídson Reis, Robson Mauro, Sergio Laurentino, Telma Souza, Valdinéia Soriano.

Músicos: Maurício Lourenço e Daniel Vieira (Nine) Realização: Bando de Teatro Olodum e Teatro Vila Velha Projeto patrocinado pela Petrobras, por meio da Lei de Incentivo à Cultura.

Histórico do Bando de Teatro Olodum(texto de Marcos Uzel, autor do livro “O Teatro do Bando – Negro, Baiano e Popular”)

O Bando de Teatro Olodum entrou em cena num final de tarde de Verão, no tablado informal de uma sala de dança no coração do Centro Histórico de Salvador. Naquele dia 25 de janeiro de 1991, chegava ao palco a companhia negra mais popular e expressiva da história do teatro na Bahia. No peito e na raça, o Bando agigantou-se. Em sua primeira apresentação, lançou a comédia Essa é nossa praia, composta por personagens baseados em tipos comuns das ruas do Pelourinho. Foi a primeira da Trilogia do Pelô, um olhar para a cultura baiana através da recriação de tipos populares, da religiosidade, da vida profana, das referências na música e na dança, enfim, um ponto de vista sobre a cidade mais negra do país.

Os outros dois espetáculos ampliaram o conteúdo temático da peça inaugural. Em Ó paí, ó!, o elenco bateu na porta dos cortiços do Pelourinho e foi para dentro das casas conhecer a intimidade dos seus moradores. Já em Bai bai Pelô, discutiu as consequências sociais do projeto de recuperação proposto pelo governo baiano para este sítio histórico tombado como patrimônio da humanidade. A peça marcou o início da carreira de Lázaro Ramos, um dos nomes mais prestigiados da nova geração de atores brasileiros, e tirou do anonimato a cantora baiana Virgínia Rodrigues, na época uma manicure que era solista do Oratório de Santo Antônio.

A partir de Bai bai Pelô, a militância negra do Bando ganhou um engajamento ainda mais evidente. O trabalho seguinte, Zumbi, abordou a realidade social das invasões e favelas das metrópoles e homenageou o grande herói da luta dos negros contra a escravidão. O contato direto com a população pobre de Salvador foi reafirmado em Relato de uma guerra que (não) acabou, uma contundente reflexão sobre a violência urbana, que fortaleceu a criação teatral crítica do grupo diante de uma realidade estendida a aspectos culturais e sociais do Brasil como um todo.

O Movimento dos Sem Terra, por exemplo, serviu como referência em Um tal de Dom Quixote, baseada na obra secular do autor espanhol Miguel de Cervantes. Já o tema de Erê pra toda a vida/Xirê foi a chacina ocorrida no Rio de Janeiro, em 1993, e que resultou no assassinato brutal de oito meninos com idade entre 10 e 17 anos, próximo à Igreja da Candelária. Na peça, cada menor morto na chacina representava um erê (criança, nos cultos afro-brasileiros) e estava associado a um orixá.

O interesse pelo candomblé, aliás, já havia sido posto em prática na peça Onovomundo, enquanto lendas sobre os orixás pontuaram o enredo de Áfricas, o primeiro espetáculo infanto-juvenil do Bando, cujo conteúdo mostra um pensamento sobre a afrodescendência para um novo público alvo e celebra a beleza da vida com os erês de uma África plural, sem deixar de dizer às crianças que o racismo não é ficção.

Mas foi com outra investigação sobre as relações humanas, tendo a questão racial como eixo central, que o grupo criou o espetáculo mais popular e de maior longevidade do seu repertório. Nunca na história do teatro na Bahia uma montagem encenada exclusivamente por atores e atrizes negros fez tanto sucesso e permaneceu tanto tempo em cartaz quanto o Cabaré da Rrrrraça, em evidência há 13 anos, com passagem por várias cidades brasileiras, além de temporadas internacionais em Portugal e Angola.

O Cabaré consolidou a popularidade local da companhia. Até que, em 2007, dez anos após a estréia desse verdadeiro cartão postal cênico, veio a visibilidade midiática no país com o filme Ó pai, ó e, na sequência, foi ao ar o bem-sucedido seriado homônimo exibido na TV Globo. Quando o grupo baiano entrou em cena nos palcos pela primeira vez, estava escrito no programa de apresentação: “Escolhemos o teatro onde basta o homem, suas palavras e sua fome de emoção e contato”. Há vinte anos, cada representante desta equipe faz valer com beleza e dignidade estas palavras, sublinhadas no conjunto dos 28 espetáculos que compõem seu repertório. Vida longa ao Bando, um bem necessário numa Bahia onde a festa e a dor dividem a mesma vizinhança.

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